Contemplação na Era do Celular

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Qual foi a última notificação que você recebeu? Já faz 15 minutos? 20? 30? Bem, aproveite para conferir mais uma vez porque aqui pedimos, por cortesia, a gentileza de desativá-las temporariamente para ler esse texto. Nada contra, afinal por um lado a tecnologia provavelmente foi o que nos trouxe até aqui agora, permitindo que você entrasse em contato com nossas palavras, mas por outro ela também pode levar sua atenção para o lado oposto do mundo em uma fração de segundos.

“O celular permite uma troca massiva, em grande volume e quantidade, de informações e dados, com pessoas que estão em outro tempo e outro espaço, diferente do seu. Isso muda a nossa percepção da realidade, já que tempo e espaço significam algo muito mais amplo quando se pensa em ciberespaço”, explica a psicóloga Priscila de Oliveira. Essa percepção vem sido afetada gradualmente com o avanço da tecnologia e cada vez torna-se uma questão mais confusa. Afinal podemos nos comunicar com qualquer um, em qualquer lugar do mundo!

Os celulares permitem a troca de experiências a nível sonoro e imagético em tempo real, o que nos dá uma sensação de realmente estar em outro lugar. Rapidamente chegamos ao amigo que não vemos a anos, à nossa cantora preferida ou a algum lugar ainda desconhecido na Inglaterra. Tudo isso nos conecta! Assim nos sentimos mais próximos de nossos desejos e de nossos iguais, mesmo estando paradinhos no conforto do nosso lar.

Mas, se estamos em todos os lugares… onde realmente estamos?

A questão é que nos transportando para outro lugar do mundo, facilmente nos esquecemos que já estamos em um deles. Mais do que isso, fazemos parte desse mundo, ocupamos espaço nele, produzimos nossa vida de acordo com a forma que utilizamos o que está a nossa volta. Em suma, o tal “conforto do lar”, de onde se alcançam tantos destinos, é também um destino em si. Quer coisa melhor do que um teto para se morar e uma almofada para se escorar? Que chamego, que acalento, que desperdício ficar tão longe dele, estando ali.

As redes sociais são fator decisivo para o crescente número de celulares nas mãos da população. Aproximadamente 80% dos jovens – de 9 a 17 anos – utilizam o celular para acessar as redes sociais, de acordo com as pesquisas mais recentes. Ali, abre-se contato para o mundo, criam-se laços e os mais variados assuntos pulam de minuto em minuto. É como viver, literalmente, em uma grande rede.

A vendedora Thayná Avilla, diz não deixar o celular de lado por mais de 15 minutos, o suficiente para deixá-la inquieta. “Quando perdi meu carregador chorei desesperadamente, não sabia onde estava e não é qualquer carregador que funciona no meu celular. Fiquei muito angustiada, não vivo sem meu celular, preciso dele”, conta.

Essa aflição se dá porque, no ponto em que estamos, a realidade material e a virtual já não parecem opostas. Elas se fundem e confundem, misturando sensações de uma forma muito complexa, que resulta em ansiedade. “Embora possa enriquecer nossas relações e produções, a nossa contínua conectividade pode dificultar nossa aceitação da realidade e seus limites. Na rede tudo acontece tão rápido e de forma tão diluída, que costumamos nos entorpecer de informações, sem conseguir aplicá-las no mundo que nos cerca”, explica a psicóloga Priscila.

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Viver pela experiência

Ao vivo e pixelado

Nem só de redes sociais vive um smartphone. Há de se admitir outra facilidade embutida na tecnologia moderna: A dos registros. Fotografar, gravar vídeos e marcar momentos ficou mais fácil e a memória ganha um descanso, com essa praticidade de acesso às lembranças. Entretanto, mesmo essa comodidade pode interferir em nossa experiência de vida. Preocupados demais com salvar o que vemos em instagram, snapchat e fotos para a eternidade, podemos nos esquecer da importância de sentir integralmente o momento que vivemos.

Essa percepção levou a estudante de jornalismo Talita Romano a adotar um estilo de vida diferente, conhecido por “slow life”, um movimento que preza pela vida mais tranquila, calma e confortável. Ela mudou seus hábitos alimentares, sua forma de trabalho e desapegou de tudo o que não trazia leveza para o seu dia a dia, inclusive o celular. “Eu tinha todos os aplicativos imagináveis, face, instagram, pinterest, tumblr, snapchat, whatsapp… tudo! Quando de repente fiquei sem celular e entrei numa tristeza sem fim, fiquei depressiva, me sentia excluída das conversas de grupo, me achava feia porque não tirava mais selfies” relembra ela.

Passado esse difícil período de adaptação, Talita foi vendo a vida por outros ângulos, fora da tela e hoje vive há dois anos com um celular simples, que só faz e recebe ligações e sms. As selfies, antes diárias, passaram a ser postadas com meses de diferença uma da outra e todas aquelas contas em redes sociais se reduziram a uma só, utilizada agora como meio de contato para amigos e assuntos da faculdade. “A gente deixa as redes sociais ocuparem um lugar muito grande na nossa vida, no fim das contas elas não são tudo isso. Hoje meus dias são mais proveitosos, acho a vida real muito mais interessante”, constata.

Se o antigo ditado nos diz que não adianta chorar pelo leite derramado, o mesmo podemos dizer sobre os momentos perdidos. A experiência é uma coisa preciosa, que não volta, nem pode ser comparada. Sabendo bem disso conseguimos alcançar o equilíbrio entre o digital, com suas infinitas possibilidades, e a realidade, com sua enorme potência para mexer com nossas sensações, emoções e percepções sobre a vida. Que saibamos sempre deixar o mundo ao nosso redor interferir em nós, para que possamos fazer o mesmo por ele.

 

um-relogio_318-2022Bem mais que 20 minutos…
dicas para você se deleitar ainda mais no assunto

Música: Céu – Amor Pixelado

Ensaio Fotográfico: Antoine Geiger – SUR-FAKE

FotorCreated

 

Documentário: Who Pays The Price – The Human Coast of Eletronics
Em tradução livre: Quem Paga o Preço? O Custo Humano dos Eletrônicos

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